sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Quarta semana

Olá, recebi sua carta mas essa semana os trabalhos foram intensos e não tive tempo de responder. Puxa vida, que pena que você foi assaltada! É, essa cidade não é fácil. Inclusive, lá no São Norberto ouvi falar que teve um caso de roubo de trufas no ano passado, mas foram só boatos na hora do almoço, sabe como é né. Não é possível que aqueles anjinhos tenham feito algo assim!

Não te mandei notícias esses tempos porque fiquei duas semanas sem ir lá na creche. Primeiro veio aquele curso, que aliás, merece uma postagem especial só pra comentá-lo, e depois, fui trabalhar como técnico de som pra filmagem de um documentário sobre o Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negres o COPENE. Muito incrível, cada história de vida dos pesquisadores e a batalha toda para fazer com que os descendentes de africanos no Brasil se libertem dos sinais e injustiças que a escravidão deixou ao longo da história do país, que como se sabe, tem uma péssima distribuição de renda. Aqueles que tiveram antepassados escravos, sabem muito bem que a abolição da escravidão não melhorou muito as condições de vida do negro, salvo com muita garra.

Falando em garra, o começo dessa semana lá com a negadinha do São Norberto, foi bem difícil.



difícil

di.fí.ciladj m+f (lat difficile)

1 Que não é fácil, que custa a fazer, que dá trabalho. 2 Penoso: Movimentos difíceis. 3 Árduo, laborioso: Tarefa difícil. 4 Complicado. 5 Intrincado. 6 Pouco possível; improvável: É difícil que isso aconteça. 7 Arriscado, perigoso. 8 Custoso de contentar; exigente. 9 Avesso, contrário, relutante. 10 Custoso de compreender; obscuro. 11 Intransitável: Caminhos difíceis. Antôn (acepções 1, 2, 3, 4, 5 e 10): fácil. (Dicionário michaelis).



E olha que fiz com grupos menores... e mesmo assim, que baile! Só no segundo dia é que eu peguei a manha. É! Tipo aquela coisa que a faculdade não ensina. Você sente que precisa mudar uma entonação de voz, uma estratégia, e as coisas mudam drasticamente.



Ainda estou pensando no que fez com que as aulas, de repente, começassem a dar certo. Acho que tem a ver com o que a Rita me falou uma vez, que há uma "maneira especial" de falar, para atrair a atenção dos pequenos.



Primeira coisa: quanto menos explicar melhor. Quando eu tentava convencê-los a ouvir uma música, eles, durante a minha fala, puxavam uma revistinha (ooo tioo olha eu achei a branca de nevee!) ou mostravam o tênis novo (ooo tioo manuel olha o tenis novo olha olha olha), ou alguma coisa do gênero. E daí, você chamava a atenção de uns, e outros já tinham levantado pra ver o que tinha atrás do biombo (tiooo tem fantasia aqui dentro do armário!!), daí você vai chamar eles, e outros dois encontram seu celular recarregando (oo tio que legaal seu celulaar, é seu messmo??) . Daí você pensa que já está tudoo dominadoo e um deles descobre como liga o piano, e o outro já tá mexendo no computador... enfim... dá pra sentir o nível de ordem de uma aula na nova "sala de música", cheia de novidades para as crianças.



No dia seguinte, resolvi fazer diferente. Eu pegava as crianças na sala, o grupinho, e tentava estabelecer um laço de cumplicidade com eles. Era pra gente descer, invisíveis, pra ninguém ver que a gente estava indo pra salinha, só nós. E eu sempre ia à frente pra ver se não havia nenhum perigo no caminho. Detalhe, eu não explicava nada. Só o fato de ir olhando na frente e fazendo gestos como se estivéssemos entrando em territórios desconhecidos, eles já captavam na hora. No pátio, eu andava sobre as linhas da quadra, bastou em andar com os braços estendidos, todos entendiam que era para se equilibrar sobre a linha, bastou eu comentar que nao queria sair da linha porque senão iria cair no lago verde da quadra, todos entenderam que seguir a linha era necessário, não porque o professor mandou, mas sim para não "cair no lago". E faziamos um percurso cuidadoso, com toda a atenção que envolve o ato de se equilibrar numa linha. Fizemos inclusive os caminhos com as linhas invisíveis. Era com esse percurso que eles entravam no território que eu queria, esse território da imaginação. Ou talvez, quem entrava era eu, visto que eles já vivem nele... a gente é que acaba quebrando o encanto. Antes de entrar na sala, eu pedia para eles esperarem um momento, sempre com gestos, nunca falando, e tudo ficava silêncioso e na expectativa. Então, eu olhava para dentro da sala, olhava de volta pra eles, que esperavam ansiosos para ver se estava tudo certo lá dentro. O Wesley Max, do 3o nessa hora chegou perto de mim e perguntou cautelosamente: "Ei tio, a barra tá limpa aí dentro?" Ainda bem que eu não ri na hora... "Acho que sim... vamos entrar" E todos entravam na ponta dos pés, enquanto eu apontava para o tapete. Ao invés de explicar que iria colocar uma música e que era pra eles prestarem atenção , e que iria contar uma história, eu passei a, assim que eles entrassem, me sentar, e colocar a música. Em algumas turmas, mesmo com a música começando e eu iniciando a narração da história (junto com a música), havia crianças que se dispersavam. Eu então, enquanto contava a história, as vezes "saía dela" para chamar a atenção, e voltar a contar. Percebi que isso quebrava o clima, mas não via outro meio. Depois, passei a simplesmente ignorar as crianças que se dispersavam, mergulhando inteiramente na história, narrando da forma mais teatral possível. Muito interessante que as crianças dispersas, de repente voltam pra história, de modo muito ativo, fazems os gestos que, se a gente fosse explicar ou pedir pra eles fazerem, eles talvez nem fariam com tanta entrega. Percebi que, apostando nessa entrega total, é muito provável conseguir envolver a todos em determinado momento. O meu objetivo era na verdade mesclar duas coisas: MÚSICA + SENSAÇÃO. Ou melhor, "ensinar que" Música = Sensação. Ou Sensação + Imaginação = Música. Ou movimento + sensação = Música. Ou, sensação + música = movimento. E é incrível como as crianças realmente vivenciam a música de modo intenso por meio de movimentos. A sala de concerto ideal para crianças seria uma sala linda onde elas pudessem dançar livremente. Elas se movimentam por um impulso muito natural, por uma vontade genuína que a música inspira. Ainda mais a criança brasileira, que tem tanto ritmo. Foi muito gratificante pra mim essas descobertas, e conseguir fazê-las mergulhar numa música, mesmo que ainda com a atuação da narrativa. O ideal é, aos poucos, ir tirando as histórias da voz do educador, e fazendo com que as crianças se permitam o contato com a imaginação delas mesmas, com o fluxo irrefreável do inconsciente, quando ouvimos uma música sem letra. Quando a música tem letra, a poesia dá o sentido. Música sem letra fica toda a atenção (ou distração) para os sons, sem significado literal, o que é um trabalho incrível de abstração, sensibilidade e imaginação.

As aulas, no início eram mais longas, depois que consegui esse outro formato, elas passaram a ser mais curtas, porém bem mais intensas. É muito bom ter o privilégio de trabalhar do jeito que quer e de poder experimentar. Preciso agradecer ao pessoal do São Norberto. Enfim, e você, tá trabalhando onde mesmo?
abraços
MANU




Um comentário:

Rose disse...

Manuel tenho acompanhado o seu blog desde o inicio e tenho percebido que assim como as crianças a sua ansiedade vem diminuindo e dando frente a esta magia que vem com a musica.
Fiquei apaixonada com o seu pensamento da terceira semana, onde você compara as aulas com o palco,è isso mesmo o professor é ator de sua própria estória , cada aula é umespetáculo diferente que nos enche de alegria ou nos frustra dependendoda plateia, mas Magia de estar lá e sensação do encantamento é só seu.
Pena que os educadores não pensem assim, por isso a educação está falida ou quase...
Pense sempre na música " O artista vai onde povo está..."
Tenho aprendido muito e espero estar sempre na primeira fila para assistir seu espetáculo, é gostoso te descobrir e perceber que você cresceu e o quanto você está ajudando o grupo a crescer

Obrigada

Rose